Recordações de meu pai

Sandra Mamede

 

 

 

 

 

   

 

 

Hoje me vi a navegar num mar de lembranças, lembranças estas que me oprimem e me deixam muito triste, mas por outro me conscientizo de que minha infância foi maravilhosa.
Entre eu e meu pai, além de um grande respeito e de um profundo amor, existia uma sintonia sem igual, inexplicável... quando um dos dois chegava em casa a primeira coisa que fazíamos era perguntar um pelo outro... eu sentia muito a sua falta porque os nossos horários não coincidiam. Ele trabalhava nos Correios no período da noite e dormia durante a manhã e uma parte da tarde. Eu estudava pela manhã , éramos que nem o sol e a lua, só nos encontrávamos no finalzinho da tarde quando ele já estava se preparando para ir trabalhar. Nesse pouco tempo tentávamos falar de tudo, mas infelizmente o tempo não nos dava tempo para tudo...
Eu tinha muito orgulho dele, entendia de tudo e era extremamente inteligente. Não tinha formação acadêmica, mas isso não fazia nenhuma diferença. Não chegou a concluir o segundo grau. Um certo dia, mexendo em algumas velharias, encontrei o seu boletim, suas notas eram excelentes. Meu avô, como bom árabe, era mascate, passava muito pouco tempo em casa e todo dinheiro que ganhava empregava em terras, meu pai praticamente foi criado sem a presença do pai. Meu avô ficava tanto tempo fora, que eles às vezes passavam uma certa dificuldade, afinal de contas, ser proprietário de terras não dava comida a ninguém, daí a dificuldade de meu pai em manter os estudos. O colégio ficava distante, ele não tinha dinheiro para tomar o bonde, então era obrigado a ir a pé para o colégio. Naquela época, os pais não acreditavam muito em "cultura" para eles não havia nenhuma vantagem em manter um filho no colégio dando despesas ao invés de trabalhar para ajudar no sustento da casa. Porém meu pai não!
desistiu, ele tinha uma caligrafia muito linda e  perfeita, e passou a fazer uso dela para tirar alguma  proveito, ou seja,  ganhar uns  "trocadinhos"; copiava tudo da aula e fazia apontamentos para os outros colegas ganhando assim "um dinheirinho" que lhe ajudava no transporte e no lanche. Não chegou a concluir o segundo grau, porque se submeteu a um concurso nos Correios e Telégrafos, foi aprovado e abandonou os estudos, nunca mais voltou às salas de aula. E nesse mesmo emprego permaneceu até o fim da sua vida.
Fisicamente era muito bonito, alto e forte. Muito brincalhão, adorava crianças, praticamente em todos os lugares que estava tinha crianças à sua volta. Íntegro e honesto, gostava de testar a honestidade dos outros, dando-lhes dinheiro a mais, ou pagando alguma coisa em notas altas, forçando assim a  pessoa  a providenciar sair do local e tentar "trocar" o dinheiro em cédulas menores, pois se fossem honestos, voltariam pra lhe dar o troco...
Era um exemplo de força e determinação, por isso foi muito difícil vê-lo doente e definhando em cima de uma cama. Sua força desaparecera, o que eu via agora era uma criança insegura e muito emotiva,  que chorava por qualquer coisa... passou a ser filho ao invés de pai... mas mesmo assim, continuávamos a conversar, a discutir sobre todos os assuntos...
Na minha cabeça, mesmo sendo adulta, eu pensava que ele seria eterno, pensava que mesmo um tanto debilitado, mesmo assim, eu o teria para sempre... que ilusão!!!
Depois que ele se foi, passei muito tempo inconformada...na verdade a  palavra certa seria "revoltada", ele não tinha o direito de me abandonar, de me deixar órfã, eu não conseguia aceitar que uma parte de mim se fosse daquela forma... e eu... o que faria?!
Foi difícil aceitar a "vontade de Deus", no meu egoísmo e na minha ignorância, demorei em entendê-LO. Hoje, penso diferente. Agradeço a Deus o pai que tive e cada segundo da minha vida  que pude compartilhar com ele. Dizem , que os amigos nós escolhemos, mas os pais, não... mas eu, de alguma forma, sinto que Deus me concedeu o prêmio maior escolhendo-o especialmente para mim... Minha saudade eterna "painho"...