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Hoje me vi a navegar num
mar de lembranças, lembranças estas que me oprimem e me deixam muito
triste, mas por outro me conscientizo de que minha infância foi
maravilhosa.
Entre eu e meu pai, além de um grande respeito e de um profundo
amor, existia uma sintonia sem igual, inexplicável... quando um dos
dois chegava em casa a primeira coisa que fazíamos era perguntar um
pelo outro... eu sentia muito a sua falta porque os nossos horários
não coincidiam. Ele trabalhava nos Correios no período da noite e
dormia durante a manhã e uma parte da tarde. Eu estudava pela manhã
, éramos que nem o sol e a lua, só nos encontrávamos no finalzinho
da tarde quando ele já estava se preparando para ir trabalhar. Nesse
pouco tempo tentávamos falar de tudo, mas infelizmente o tempo não
nos dava tempo para tudo...
Eu tinha muito orgulho dele, entendia de tudo e era extremamente
inteligente. Não tinha formação acadêmica, mas isso não fazia
nenhuma diferença. Não chegou a concluir o segundo grau. Um certo
dia, mexendo em algumas velharias, encontrei o seu boletim, suas
notas eram excelentes. Meu avô, como bom árabe, era mascate, passava
muito pouco tempo em casa e todo dinheiro que ganhava empregava em
terras, meu pai praticamente foi criado sem a presença do pai. Meu
avô ficava tanto tempo fora, que eles às vezes passavam uma certa
dificuldade, afinal de contas, ser proprietário de terras não dava
comida a ninguém, daí a dificuldade de meu pai em manter os estudos.
O colégio ficava distante, ele não tinha dinheiro para tomar o
bonde, então era obrigado a ir a pé para o colégio. Naquela época,
os pais não acreditavam muito em "cultura" para eles não havia
nenhuma vantagem em manter um filho no colégio dando despesas ao
invés de trabalhar para ajudar no sustento da casa. Porém meu pai
não!
desistiu, ele tinha uma caligrafia muito linda e perfeita, e passou
a fazer uso dela para tirar alguma proveito, ou seja, ganhar uns
"trocadinhos"; copiava tudo da aula e fazia apontamentos para os
outros colegas ganhando assim "um dinheirinho" que lhe ajudava no
transporte e no lanche. Não chegou a concluir o segundo grau, porque
se submeteu a um concurso nos Correios e Telégrafos, foi aprovado e
abandonou os estudos, nunca mais voltou às salas de aula. E nesse
mesmo emprego permaneceu até o fim da sua vida.
Fisicamente era muito bonito, alto e forte. Muito brincalhão,
adorava crianças, praticamente em todos os lugares que estava tinha
crianças à sua volta. Íntegro e honesto, gostava de testar a
honestidade dos outros, dando-lhes dinheiro a mais, ou pagando
alguma coisa em notas altas, forçando assim a pessoa a
providenciar sair do local e tentar "trocar" o dinheiro em cédulas
menores, pois se fossem honestos, voltariam pra lhe dar o troco...
Era um exemplo de força e determinação, por isso foi muito difícil
vê-lo doente e definhando em cima de uma cama. Sua força
desaparecera, o que eu via agora era uma criança insegura e muito
emotiva, que chorava por qualquer coisa... passou a ser filho ao
invés de pai... mas mesmo assim, continuávamos a conversar, a
discutir sobre todos os assuntos...
Na minha cabeça, mesmo sendo adulta, eu pensava que ele seria
eterno, pensava que mesmo um tanto debilitado, mesmo assim, eu o
teria para sempre... que ilusão!!!
Depois que ele se foi, passei muito tempo inconformada...na verdade
a palavra certa seria "revoltada", ele não tinha o direito de me
abandonar, de me deixar órfã, eu não conseguia aceitar que uma parte
de mim se fosse daquela forma... e eu... o que faria?!
Foi difícil aceitar a "vontade de Deus", no meu egoísmo e na minha
ignorância, demorei em entendê-LO. Hoje, penso diferente. Agradeço a
Deus o pai que tive e cada segundo da minha vida que pude
compartilhar com ele. Dizem , que os amigos nós escolhemos, mas os
pais, não... mas eu, de alguma forma, sinto que Deus me concedeu o
prêmio maior escolhendo-o especialmente para mim... Minha saudade
eterna "painho"...
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