Dia dos Namorados

Pedro Cardoso

 

Engraçado hoje é o Dia dos Namorados, isso me fez lembrar de um fato que não tem nada a ver com o dia de hoje. Mas se não tem nada a ver, por que é que estou aqui a lhes dizer essas coisas? Parece que o tempo, depois de muito tempo, voltou para mim. Eu até pensava que esse acontecimento havia encontrado um outro destino que não fosse aquele que vem de dentro de mim.

 

Nós éramos dois meninos absolutamente desencontrados, ele era negro, eu branco, ele era pobre, eu, remediado, ele não tinha uma família constituída, eu, não sei bem por quais motivos tenho uma dúzia de irmãos. Ele era pequeno... acho que comia pouco.

 

Estou aqui rindo de mim mesmo. Que coisa mais maluca, o pior; é que sei que hoje é o Dia dos Namorados, estou aqui com a folhinha nas mãos e justo nesse dia vou lhes contar da morte do Zé Pretinho. Um menino que ninguém sabia de onde tinha vindo, mas que era um amor de criatura, o nome de seus pais, ele nunca disse, se tinha irmãos certamente os ignorava, pois deles nunca soube qualquer palavra.

 

Eu não sabia exatamente onde ele dormia. Quando escurecia sumia dentro da noite que nem um velho corisco, não deixava rastro nem na poeira do vento. Eu também não me preocupava com isso, no outro dia ele sempre aparecia com o mesmo sorriso do dia anterior.

 

Lembro-me como se fosse hoje, de certa vez que, no Dia dos Namorados, ele não voltou, uma banca de revistas que ficava próxima a minha casa pegou fogo à noite toda, ardeu como uma tocha de olímpica. Pessoas olhavam atônitas ao amontoado de revistas e jornais pegando fogo. O que ninguém sabia era que ali escondia um menino de rua que atendia pelo nome de Zé Pretinho.

 

Foi enterrado como indigente, nem eu, nem ninguém sabia ao certo o seu nome. O corpo, pelo que eu saiba nunca foi reclamado por qualquer família. Acho que também não ia fazer lá essas diferenças, quem haveria de se importar com um menino que não tinha se quer, um sobrenome pomposo? 

 

O que me deixa triste é saber que ele não teve muita escolha, ou melhor, que ele nem chegou saber o que era ter uma namorada. Morrer assim não é justo, até mesmo a imagem que tenho dele já está carcomida pelo tempo. Ah, como eu gostaria que ele soubesse que ainda penso nele, pelo menos no Dia dos Namorados.

 
 

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