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Engraçado
hoje é o Dia dos Namorados, isso me fez lembrar de um fato que não
tem nada a ver com o dia de hoje. Mas se não tem nada a ver, por
que é que estou aqui a lhes dizer essas coisas? Parece que o
tempo, depois de muito tempo, voltou para mim. Eu até pensava que
esse acontecimento havia encontrado um outro destino que não
fosse aquele que vem de dentro de mim.
Nós
éramos dois meninos absolutamente desencontrados, ele era negro,
eu branco, ele era pobre, eu, remediado, ele não tinha uma família
constituída, eu, não sei bem por quais motivos tenho uma dúzia
de irmãos. Ele era pequeno... acho que comia pouco.
Estou
aqui rindo de mim mesmo. Que coisa mais maluca, o pior; é que sei
que hoje é o Dia dos Namorados, estou aqui com a folhinha nas mãos
e justo nesse dia vou lhes contar da morte do Zé Pretinho. Um
menino que ninguém sabia de onde tinha vindo, mas que era um amor
de criatura, o nome de seus pais, ele nunca disse, se tinha irmãos
certamente os ignorava, pois deles nunca soube qualquer palavra.
Eu
não sabia exatamente onde ele dormia. Quando escurecia sumia
dentro da noite que nem um velho corisco, não deixava rastro nem
na poeira do vento. Eu também não me preocupava com isso, no
outro dia ele sempre aparecia com o mesmo sorriso do dia anterior.
Lembro-me
como se fosse hoje, de certa vez que, no Dia dos Namorados, ele não
voltou, uma banca de revistas que ficava próxima a minha casa
pegou fogo à noite toda, ardeu como uma tocha de olímpica.
Pessoas olhavam atônitas ao amontoado de revistas e jornais
pegando fogo. O que ninguém sabia era que ali escondia um menino
de rua que atendia pelo nome de Zé Pretinho.
Foi
enterrado como indigente, nem eu, nem ninguém sabia ao certo o
seu nome. O corpo, pelo que eu saiba nunca foi reclamado por
qualquer família. Acho que também não ia fazer lá essas
diferenças, quem haveria de se importar com um menino que não
tinha se quer, um sobrenome pomposo?
O
que me deixa triste é saber que ele não teve muita escolha, ou
melhor, que ele nem chegou saber o que era ter uma namorada.
Morrer assim não é justo, até mesmo a imagem que tenho dele já
está carcomida pelo tempo. Ah, como eu gostaria que ele soubesse
que ainda penso nele, pelo menos no Dia dos Namorados.
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