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O encontro inusitado
Época de Carnaval. Ela
está ansiosa, 8 anos já se passaram e mais um Carnaval se
aproximava...
Essa história começou no Carnaval.
Por muita insistência das amigas, resolveu pela primeira
vez curtir o Carnaval da sua terra (Salvador), para não passar
sozinha, pois não iria viajar. Decidiu então pagar um bloco pois
assim estaria mais segura do que ficar de "pipoca" (pessoas que não
pagam bloco e ficam pulando soltas na rua , no meio da multidão).
Na verdade, nem gostava muito de Carnaval, não era uma foliã como as
outras, estava naquele dia brincando sozinha, calmamente, desligada
de tudo e de todos, deixando-se levar pelo bloco, só sentia a música
estridente do "Trio Elétrico" penetrando no seu cérebro...
Nesse momento, um outro bloco passa pelo dela, e no meio
daquela grande quantidade de pessoas, numa mistura de ritmos e de "abadás"
(é o nome do traje típico dos blocos de Salvador), como um ímã, seu
olhar foi atraído, saiu do seu torpor, procurou a direção, e no meio
daquela confusão e daquela multidão...ela o viu!!! Ele também
a olhava!!! Neste momento os seus olhos se encontraram...não
conseguiram parar de se olharem. Estavam em blocos diferentes, ela
no "Araketu", ele no "Chiclete", assim como os seus olhares, os
blocos também se cruzaram...seguiram adiante...passaram...
Era segunda- feira de Carnaval, ele foi levado pela multidão
e ela ficou cercada, no meio do seu bloco...se perderam de vista,
ainda tentou seguir o bloco dele, mas não conseguiu, permaneceu
sozinha, no meio da multidão, ainda sentindo aquele olhar...
Durante o resto do dia não parou de pensar nele um minuto
sequer, e questionava se no outro dia eles ainda se
encontrariam...se veriam.... |
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A esperança do
reencontro
Não dormiu direito
naquela noite, todos os seus pensamentos estavam voltados para
aquele olhar, para aquele desconhecido, que por incrível que possa
parecer, já não era tão desconhecido, era como se ela já o
conhecesse de algum lugar, pois o que aconteceu, pelo menos para
ela, não tinha sido simplesmente uma troca de olhares, fora algo
mais profundo...
Naquela noite, não parou de pensar "nele"...a noite passou
lentamente... foi uma tortura, esperar o dia amanhecer...finalmente
o dia apareceu... um dia lindo, típico do último dia de Carnaval em
Salvador.
Ela estava ansiosa, seu bloco sairia às 14 horas, queria que
a hora chegasse logo, não agüentava esperar mais, contava as horas,
os minutos, não via a hora de ir para a "Avenida" (Avenida Sete de
Setembro, circuito do Carnaval de Salvador), encontrar o seu bloco e
esperar a passagem do "Chiclete" para vê-lo...será que ele estaria
lá? será que ainda o veria?!
Finalmente a tão esperada hora chegara, oficialmente vestida,
"abadá", "mamãe-sacode", estava linda, maravilhosa, seguiu para o
encontro com o seu bloco
Encontrou o seu bloco e ficou na expectativa da passagem do
"Chiclete"...
De repente, ouviu aquele som inconfundível, típico do
"Chiclete" que todos conhecem, é o grito de "guerra" do "Chiclete"
anunciando a sua chegada...
Esqueceu do seu bloco, da sua turma, e se posicionou de
forma que pudesse procurá-lo, o bloco era imenso, mas tinha
esperança, ela olhava, procurava aqueles olhos que ficaram gravados
na sua mente, vasculhava cada rosto... insistia...
De repente, como que atraída, no meio a tantos, reconheceu
aqueles olhos, aquele olhar... era ele!!! |
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O reencontro
Sorrindo... foram
andando um na direção do outro, nada falaram, somente deram-se as
mãos, abandonaram os seus blocos... a "Avenida" se tornou pequena
demais para os dois, queriam ficar a sós, sair dali, fugir da
multidão...
Seguiram sem destino, foram andando, deixando o Carnaval, o
barulho e a multidão para trás...
Desceram à praia, sentaram na areia, ficaram frente a frente
pela primeira vez, como quadro de fundo, o mar, azul, lindo,
maravilhoso, com os seus vários tons de azul, céu claro, nuvens
brancas correndo no céu infinitamente azul como que lhes dando as
boas vindas, seria um quadro lindo, se não fosse real... muito
real....
Conversaram muito, não trocaram confidências, só conversaram
o essencial, o que realmente interessava... ela, 35 anos,
publicitária, comprometida. Ele 40 anos, advogado, vida
estabilizada, morava em outro Estado, (São Paulo), era também
comprometido, como estava de férias veio conhecer o Carnaval tão
falado de Salvador. Não falaram de coisas pessoais, mas no pouco que
conversaram, perceberam, era um amor impossível...
Estavam em plena terça-feira de Carnaval, último dia que
estariam juntos, as horas voavam, tinham pouco tempo, em breve a
separação seria inevitável, era o seu último dia juntos...
Não podiam e não queriam assumir nenhum compromisso, mas
também não poderiam negar que se envolveram demais, tinham certeza
que não era um simples amor de Carnaval, que logo cairia no
esquecimento. Foi algo muito mais profundo.
Cada um tinha a sua vida, os seus compromissos, que no outro
dia incondicionalmente teriam que assumir. Ele retornaria a São
Paulo, e ela a sua vida normal...
As horas continuavam passando... voando, o tempo deles
estava se esgotando. Sabiam que seria o seu último dia juntos, mas
mesmo assim, não assumiram nenhum compromisso..Sem números de
telefones, sem endereços, nada que os prendessem ou os
comprometessem... Dessa forma, não restava mais nenhuma esperança...
Quarta-feira de "cinzas", ainda estavam juntos, a hora mais
temida, a hora da separação estava chegando, na Barra, os Trios
Elétricos já estavam se reunindo para a despedida do Carnaval, agora
só no próximo ano... e eles... eles continuavam sentados na areia da
praia. Assistiram o pôr-do-sol, o nascer da alvorada juntamente com
o nascer do sol. Quanto mais a hora final se aproximava mais ficavam
desesperados, não queriam se separar, porém, não podiam se
comprometer nem se prometer absolutamente nada... |
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A despedida
Chegara a hora tão temida, não tinham mais como adiá-la, no auge da
despedida, do desespero, da ansiedade, tiveram uma idéia !!! Era o
ano de 1993, Carnaval de 93, apesar do desespero, continuaram
convictos de que não poderiam, nem deveriam trocar nenhuma
informação pessoal, deveriam seguir as suas vidas, o seu
destino...mas poderia fazer uma promessa...e esse seria o único
compromisso que assumiriam...o amor que os uniu, seria somente um
amor de Carnaval, de todos os Carnavais daqui pra frente... e assim
a promessa foi feita e o compromisso assumido.
Acontecesse o
que acontecesse, todos os Carnavais eles se encontrariam, nunca
falhariam, somente a morte poderia fazer com que faltassem a esse
compromisso. Suas vidas paralelas não interessava.A vida dos dois se
resumiria simplesmente ao Carnaval.
Continuariam
cada um saindo nos seus respectivos blocos, este seria o único ponto
de encontro e de referência para os dois se reencontrarem...
E assim foi
durante 8 anos, no Carnaval se encontravam, se curtiam, se amavam e
na quarta-feira...se despediam até o próximo Carnaval, mas mesmo
assim, o amor dos dois continuava firme e lindo...agora...ela com 43
anos, ele com 48...
No ano de 2001
porém, ao se encontrarem, ela quase não o reconheceu....bem mais
magro, já não havia aquele brilho lindo no seu olhar, apesar do
Carnaval, estava triste, muito triste, já não conseguia se enquadrar
naquele clima festivo de Carnaval...
Contou-lhe que
não estava bem de saúde, que o coração tinha lhe pregado uma peça,
teve que se submeter a uma cirurgia e ainda estava se recuperando,
que na verdade ele não poderia ter feito aquela viagem tão
cansativa, mas conforme a promessa feita, ele não poderia nunca
deixar de ir ao seu encontro, ao encontro do amor, da vida, porque a
melhor parte da sua vida, estava naqueles Carnavais...e ele só não
iria encontrá-la, só faltaria ao compromisso assumido se não tivesse
mais forças, ou vida para ir ao seu encontro...
Assim, aquele
Carnaval foi de entrega total, era como uma despedida, ambos no
fundo sabiam que poderiam nunca mais se encontrarem...então o amor
deles naquele Carnaval de 2001 foi completo, foi sublime, foi
maravilhoso... porque não sabiam o que os aguardariam no ano
seguinte... |
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A espera
Assim, no ano passado (2002), como nos anos anteriores,ela foi ao
encontro do seu amor, o seu amor de Carnaval...
Sábado... primeiro dia.... procurou-o... não o encontrou....
Domingo... sua procura continuou, esperou, mas também não o
encontrou...
Na verdade o seu coração já pressentia que o pior tinha
acontecido, mas não queria aceitar, o seu desespero e a sua tristeza
eram muito grandes...ainda tinha esperanças...
Segunda-feira... muito triste, noites sem dormir, parecia um
robô andando pelo meio dos blocos procurando-o... mais uma vez não o
encontrou...
Terça-feira... último dia, fio de esperança, procurou-o,
esperou-o, o dia passou, a noite chegou e ela não encontrou o seu
amor... agora tinha certeza, não mais o veria, ele se fora, não
estava mais entre os foliões... sabia que o perdera para sempre,
restava agora a lembrança de um amor lindo, maravilhoso que valeu a
pena ter sido vivido...
Continuou acompanhando o seu bloco, se despedindo também do
Carnaval, pois não mais iria a "Avenida" na época do Carnaval...
As lágrimas inundavam o seu rosto, desciam e molhavam o seu "abadá",
aquelas lágrimas ficariam ali registradas para sempre... e então
como que para confirmar a sua despedida, o seu adeus ao seu amor,
nesse momento passa pelo seu lado, o bloco "Chiclete", e o vocalista
fazendo uma alusão ao amor de Carnaval, homenageia a todos aqueles
que só amam no Carnaval, assim como fora o amor deles... e ela
continua a sua caminhada de despedida ao som de...
"Um beijo em você eu quero dar... saudade presa no meu
coração... eu fico louco, apaixonado, alucinado por você....
É pena que esse amor... não possa mais ficar.....
Então diga que valeu, o nosso amor valeu demais....
Foi lindo...ficou pra trás....
E assim, entre as lágrimas de tristeza, mas com a lembrança
de um amor muito lindo, ela seguiu o bloco se despedindo do seu
grande amor de Carnaval....
FIM
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