Aconteceu no carnaval

Sandra Mamede

 

 

Neste período do Carnaval, a programação está toda voltada para a folia momesca, escolha do Rei Momo, da Rainha do Carnaval, as mudanças que ocorrem na cidade, entrevistas com visitantes de outros estados, o que esperam do Carnaval, e quando termina a folia, eles são obrigados a deixarem registrados as suas opiniões, as suas reclamações e uma pergunta não pode deixar nunca de ser feita, apesar de ser para alguns, um pouco constrangedor respondê-la:encontrou um amor especial no Carnaval? vai permanecer ou foi somente um amor de Carnaval? amor de carnaval dá, certo?

 

Alguns desconversam, outros dizem que só "ficaram", outros ainda se dizem apaixonados, e ainda têm os mais radicais que nem voltam mais para casa...

 

Nesta confusão de entrevistados uma mulata muito linda diz que o Carnaval foi muito bom para ela e mostra o homem que está ao seu lado, como seu marido, foi um amor de Carnaval!!!

 

Coincidentemente um fato desse aconteceu na minha família. Minha mãe tinha um irmão de "consideração" (não era irmão biológico), era bombeiro e tinha 8 filhos, 4 homens e 4 mulheres. Como o salário de bombeiro era muito pouco, sua esposa não trabalhava e seus filhos ainda eram menores, ele trabalhava muito para sustentar tanta gente. Fazia segurança particular, tomava conta de parquinhos quando eram montados no nosso bairro (brincávamos em todos os brinquedos sem pagar!). Todo esse esforço o prejudicou, pois veio a falecer muito novo, deixando uma viúva com 8 filhos pequenos!!! Ela, desesperada, pela falta que ele fazia e sem nenhum preparo e condições para enfrentar a vida e criar os filhos, veio também a falecer um mês depois, deixando 8 crianças órfãs de pai e mãe...

 

Foi muito triste, vimos uma família se acabar em muito pouco tempo. Pensou-se no que fazer para ajudar àquelas crianças e a única solução foi distribuí-las nas casas dos parentes. E assim eles foram criados. Estudaram, alguns começaram a trabalhar muito cedo, os mais velhos conseguiram alugar uma casinha e alguns foram morar com eles. Dentre eles, tinha uma menina muito linda,mulata, já com 16 anos, trabalhava ajudando numa igreja católica cujo padre a protegia muito, estudava e morava com uma tia, seu nome era Jaciara.

 

Não era muito de sair, nem de se divertir. Uma ocasião, a tias a levou pra conhecer o Carnaval de rua de Salvador, onde ela conheceu um dinamarquês, por nome Roberto, se encontraram durante o Carnaval, trocaram endereço ( com muita dificuldade pois ele não falava uma palavra de português), ele prometeu então que no outro viria e queria vê-la de novo. Mas que durante este período de afastamento eles se corresponderiam. Terminado o Carnaval, ele voltou para a Dinamarca e as esperanças de Jaciara também acabaram. Não tinha esperança, nem acreditava que ele iria se lembra dela e escreveria...

 

Para sua surpresa, 10 dias depois, ela recebeu uma correspondência dele, em inglês!
Não sabíamos nada de inglês, o pouco que sabíamos da escola não servia, nem nos dava condições de entender o que ele escrevera, consultamos um dicionário, mas adiantou muito pouco. Jaciara então pediu para o padre traduzir pra ela. Na carta ele mandava dizer que não a esquecera, que ela aguardasse que em junho ele voltaria ao Brasil, queria conhecer a família dela e assumir um compromisso sério com ela.

 

Foi uma felicidade, trocavam correspondências toda as semanas, e o amor se solidificou.
No mês de junho, Roberto (nome dele), voltou ao Brasil, foi apresentado a toda a família, passou 15 dias aqui, foi uma felicidade muito grande para ela. Menina pobre, órfã, vivendo de favor na casa de parentes, agora tinha alguém que verdadeiramente a amava e se preocupava com ela.

 

Na despedida, Roberto, mandou que ela preparasse, todos os papéis que ele viria em dezembro se casariam e ele a levaria embora para a Dinamarca.

 

Foram meses de ansiedade. a espera era insuportável e o medo de que ele desistisse também!

 

Em dezembro de de 1990, casaram-se. Jaciara foi morar na Dinamarca, é claro que sofreu muita discriminação devido a sua cor, com sofrimento e com muita dificuldade conseguiram superar. 

 

Já se passaram 13 anos, eles já tem uma filhinha de 10 anos que adora o Brasil. Jaciara estudou, se formou, montou uma firma de eventos onde o forte é a comida baiana (brasileira de um modo geral). De dois em dois anos, passa três meses de férias aqui no Brasil. Ajudou a todos os seus irmãos e hoje é uma mulher realizada e feliz.

 

Foi um amor de Carnaval que ficou e criou raízes e permaneceu...





 

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