O poço

Outro dia, fui ver antigo e velho poço,

Que havia atrás da casa, ali, abandonado,

Faz tantos anos, sem trato. Inda eu era moço,

Sua água fresca, bebia, à farta e sem cuidado.

 

Vi-o, coberto de mato e sob a água turva, ouço,

um fervilhar estranho, algo que, sussurrado,

Parecia uma queixa ou protesto, esboço,

de revolta, por já não ser mais procurado.

 

Certas pessoas são como esse poço escuro,

Têm, na alma, o desespero, o ódio, lamentações,

Vivem a protestar, queixam-se de abandono.

 

Bem não sei qual melhor, se deixá-las no duro

Esquecimento ou dar-lhes paz aos corações:

- O sofrimento mostra a verdade ao seu dono.

 

 

Raymundo Nonato de Almeida Gouveia

Bom Jesus da Lapa (Ba), novembro de 1928

 

 

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