Anjinho pobre

Em caixa de papel, sem flores, foi deixado,

Lívido, corpo frio, ao total abandono,

Um pobre anjinho, que não fora despertado

Para a vida, de que devera ser o dono.

 

Nem os olhos abrira à luz, teve-os cerrados,

Sequer, pôde sentir da vida um leve tono,

Tão logo, pela morte iníqua, foi levado

Às regiões do ignoto, em sempiterno sono.

 

Morreu, sem ter sorvido um bom hausto da vida,

Gozado, um só momento, a beleza do mundo,

Visto o azul do céu, da natureza a festa.

 

Não creio possa ser justa a pena sofrida,

Que não o fez viver, ao menos, um segundo:

-Exata explicação, somente a ciência atesta.

 

Raymundo Nonato de Almeida Gouveia

Cacha-Prego - junho de 1987

 

 

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