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Eu era muito pequena quando
descobri que Papai Noel não existia. Notei um certo movimento na casa,
procurei e achei uma boneca escondida no guarda-roupa. Quando a recebi
na manhã do Natal, concluí que meu pai havia comprado e até sabia onde,
pois eu a via sempre na vitrine. Mais cedo do que deveria, deixei de
acreditar no velhinho injusto, porque nunca havia trazido nada às
crianças vizinhas e me fazia sempre achar que eu recebia por ser
merecedora.
Quando o dia vinte e cinco amanhecia, todas as crianças saíam às
ruas para mostrarem os presentes e eu ficava imaginando que bastava ser
boazinha para receber o que quisesse e considerava quem não recebia
pessoas más. Ainda bem que a minha descoberta tão precoce me livrou de
tanto julgamento errôneo e então, para meu desassossego, passei a me
preocupar com a data.
Havia uma gravura num livro em que duas crianças miseráveis e famintas,
sob uma chuva fria, observavam através de uma janela a alegria e a
fartura de uma família rica. Feliz ou infelizmente foi esta a imagem que
simbolizou por toda a minha vida não só o Natal, mas o mundo como palco
das desigualdades e do menosprezo a elas.
Azar o meu, que nasci com a mania de pensar demais e de ser
exageradamente sensível e sofrer pela infelicidade dos outros.Não pensem
que por isso sou alguma santa, sou apenas observadora com olhos de
águia.
Hoje em dia piorou muito mais com a explosão demográfica garantindo aos
mais pobres o primeiro lugar em número de filhos.Diante da janela do
livro estão, com certeza, incontáveis excluídos, que não foram
convidados a festejar.
Até pouco tempo era usual famílias levarem para passar o Natal do lado
de dentro da janela crianças de orfanato ou da rua.Custaram a perceber
que a volta ao mundo de onde tinham sido tiradas fazia um mal
terrível.Experimentavam a vida boa e não podiam continuar desfrutando
dela.
Esta é a nostalgia que não consigo deixar de sentir e se aviva mais
agora diante de tantos apelos de feliz Natal. Como há uma disposição de
muita gente para ajudar, deveria haver Natal todo mês, todos os dias e
até seria uma oportunidade de praticarmos um dos Mandamentos: "Ama o teu
próximo como a ti mesmo."
Quando eu estava no segundo ano do curso primário um fato me mostrou o
valor das coisas.Era uma classe feita só de meninas e as aulas iam até
bem perto do Natal.Combinamos oferecer à professora um mimo qualquer,
um bibelô de louça grosseira,uma caixinha de pó-de-arroz, um lencinho,
um perfume barato. Quando a mestra entrou, a mesa estava coberta dessas
lembrancinhas carregadas de sinceridade e boas intenções.Ela foi
abrindo uma a uma e sorria enquanto nós tentávamos descobrir, pela
expressão dos seus olhos, se ela tinha gostado ou não.Foi quando ouvimos
um choro doído vindo do fundo da classe. Olhamos curiosas e uma menina
franzina e de olhos assustados, trajando um vestido surrado e os pés
descalços se lamentava por não ter podido trazer um presente para a
professora. Esta atravessou a sala e vi nos seus olhos a maior sensação
de alegria. Abraçou a aluna e agradeceu o melhor presente de Natal que
pudera receber em toda a sua vida.
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