Uma história de Natal                       

                                                         Maria de Ângelo

 

 

Eu era muito pequena quando descobri que Papai Noel não existia. Notei um certo movimento na casa, procurei e achei uma boneca escondida no guarda-roupa. Quando a recebi na manhã do Natal, concluí que meu pai havia comprado e até sabia onde, pois eu a via sempre na vitrine. Mais cedo do que deveria, deixei de acreditar no velhinho injusto, porque nunca havia trazido nada às crianças vizinhas e me fazia sempre achar que eu recebia por ser merecedora.
Quando o dia vinte e cinco amanhecia,  todas as crianças saíam às ruas para mostrarem os presentes e eu ficava imaginando que bastava ser boazinha para receber o que quisesse e considerava quem não recebia pessoas más. Ainda bem que a minha descoberta tão precoce me livrou de tanto julgamento errôneo e então, para meu desassossego, passei a me preocupar com a data.
Havia uma gravura num livro em que duas crianças miseráveis e famintas, sob uma chuva fria, observavam através de uma janela a alegria e a fartura de uma família rica. Feliz ou infelizmente foi esta a imagem que simbolizou por toda a minha vida  não só o Natal, mas o mundo como palco das desigualdades e do menosprezo a elas.
Azar o meu, que nasci com a mania de pensar demais e de ser exageradamente sensível e sofrer pela infelicidade dos outros.Não pensem que por isso sou alguma santa, sou apenas observadora com olhos de águia.
Hoje em dia piorou muito mais com a explosão demográfica garantindo aos mais pobres o primeiro lugar em número de filhos.Diante da janela do livro estão, com certeza, incontáveis excluídos, que não foram convidados a festejar.
Até pouco tempo era usual famílias levarem para passar o Natal do lado de dentro da janela crianças de orfanato ou da rua.Custaram a perceber que a volta ao mundo de onde tinham sido tiradas fazia um mal terrível.Experimentavam a vida boa e não podiam continuar desfrutando dela.
Esta é a nostalgia que não consigo deixar de sentir e se aviva mais agora  diante de tantos apelos de feliz Natal. Como há uma disposição de muita gente para ajudar, deveria haver Natal todo mês, todos os dias e até seria uma oportunidade de praticarmos um dos Mandamentos: "Ama o teu próximo como a ti mesmo."
Quando eu estava no segundo ano do curso primário um fato me mostrou o valor das coisas.Era uma classe feita só de meninas e as aulas iam até bem perto do Natal.Combinamos  oferecer à professora um mimo qualquer, um bibelô de louça grosseira,uma caixinha de pó-de-arroz, um lencinho, um perfume barato. Quando a mestra entrou, a mesa estava coberta dessas lembrancinhas  carregadas de sinceridade e boas intenções.Ela foi abrindo uma a uma e sorria enquanto nós tentávamos descobrir, pela expressão dos seus olhos, se ela tinha gostado ou não.Foi quando ouvimos um choro doído vindo do fundo da classe. Olhamos curiosas e uma menina franzina e de olhos assustados, trajando um vestido surrado e os pés descalços se lamentava por não ter podido trazer um presente para a professora. Esta atravessou a sala e vi nos seus olhos a maior sensação de alegria. Abraçou a aluna e agradeceu o  melhor presente de Natal que pudera receber em toda a sua vida.


 

 

 

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