Lua quebrada                       

                                                         Maria de Ângelo

 

 

Sempre adorei conversar com crianças. Vêm delas uma espontaneidade, uma sinceridade pelo fato de que não usam o duplo sentido e falam o que pensam numa avaliação objetiva do que vêem ou sentem. Meus próprios filhos me ensinaram muita coisa e meu diálogo com eles foi tão intenso, que até hoje nosso assunto é inesgotável. Luciana nunca admitiu um tapa e dizia: "Fale comigo que eu entendo."  "Certa vez eu soube que meu filho Marcelo ia brigar depois da aula e fiquei apavorada querendo intervir.  Ele tinha apenas sete anos. Luciana não deixou e disse que ele precisava se defender e que a minha presença o desmoralizaria diante da turma. Ele chegou em casa com o rosto meio roxo, mas disseram todos que ele venceu a luta.
Muitas mães e inclusive eu não aceitam as derrotas dos filhos, porque todas queremos o melhor para eles. Perder de vez em quando ajuda formar valores mais sólidos . Quando eles estavam no prezinho, houve uma competição. Luciana , um ano mais velha e líder por natureza, comandava a turma e com certeza se sairia bem, mas o Marcelo, muito sossegado, não ganharia nenhuma prova. No final do dia ele chegou com as mãos cheias das réguas, borrachas e lápis, os prêmios conseguidos na corrida do ovo. Foi campeão naquilo que exigia concentração e cuidado.
Passei pelo menos  oito anos da minha vida sentada na ante- sala do Conservatório Musical para que eles estudassem música. Hoje  ouço deles o agradecimento, porque acham que a música  os ajuda viver e até profissionalmente, se quisessem. Ainda combino com eles a leitura de um mesmo livro para discutirmos depois.
Num dia perdido lá atrás, quando eu ainda contava histórias e histórias, que eles adoravam, aconteceu um fato que já marcava a boa índole que meu filho haveria de ter. Quando Cachinhos de Ouro tomou toda a sopa do ursinho e ele chorou a falta do alimento, Marcelo consertou tudo como que consolando a mim e ao ursinho: "Na panela tem mais."
E num final de tarde, quando íamos num passeio de carro pela estrada, ele olhou o pôr-do-sol afogueado e comentou: "Mãe, o céu está machucado!"
Já mais crescida, Luciana, quando via a casa em desordem e eu precisando da ajuda dela, pegava o violão e tocava todas as músicas de meu agrado. Como não gostar dessa ajuda?
Até hoje ela me brinda até pela Internet cantando e tocando e quando estamos juntas, é o maior presente que ela pode me dar.
Escrever tudo isto me fez um bem enorme, porque no julgamento deles fui uma boa mãe. Foi um texto difícil de escrever, porque por muitas vezes tive dificuldades de enxergar o teclado pelas lágrimas que estão aqui me atrasando e o jornal esperando o texto para fechar a edição.
Tive ainda a sorte de ganhar outra filha de presente, que está conosco há anos e que se tornou tão querida quanto os outros. Por ser médica, é minha conselheira, minha amiga confidente e sei que ela gosta de mim como mãe.
Quando tudo dá errado, quando fico triste não deixo de lembrar o comentário de minha sobrinha numa noite de Natal. Como faziam muita bagunça dentro do carro, eu, para conter a luta das crianças, disse assim: "Olhem para a lua, que Papai Noel está lá!" Eles olharam e como nada viram, ela retrucou ainda com os olhos na lua em forma de foice: "Imagine se Papai Noel quer morar numa lua quebrada!?
 

 

 

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