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Um presente
inesperado
Fernando Serqueira
Chovera
toda a noite. As ruas eram autênticas ribeiras, arrastando na enxurrada
toda a espécie de detritos. Os carros passando a alta velocidade
espalhavam, indiferentes, água suja sobre os transeuntes, molhando-os,
sujando-os.
O Tonito seguia também naquela onda humana, sem destino. Tinha-se
escapulido da barraca, onde vivia. Os pais tinham saído cedo para o
trabalho, ainda ele dormia, os irmãos ficaram por lá brincando,
chapinhando na lama que rodeava a barraca. Ele desceu à cidade, onde
tudo o deslumbrava. Todo aquele movimento irregular, caótico, frenético.
Os automóveis em correrias loucas, as gentes apressadas nos seus
afazeres. E lá seguia pequenino, entre a multidão, numa cidade impávida,
indiferente, cruel mesmo. Passava em frente às pastelarias, olhava para
as montras recheadas de doçuras, ele comera de manhã um bocado de pão
duro e bebera um copo de água. Vinha-lhe o aroma agradável dos bolos, o
seu pequeno estômago doía-lhe com fome! Chovia agora mansamente, uma
chuva gelada, levando uma cidade onde se cruzavam o fausto, a vaidade, o
ter tudo, os embrulhos enfeitados das prendas, com a dor a melancolia, o
sofrimento, o ter nada e no meio uma criança triste e com fome!
Mas o Tonito gostava era de ver as lojas dos brinquedos. Lá estavam os
carros de corrida, o comboio, os bonecos, enfim todo um mundo
maravilhoso que ele vivia, esborrachando o nariz sujo contra a montra.
Lá dentro ia grande azáfama nas compras de Natal. E os carros de
corrida, o comboio, os bonecos eram embrulhados em papeis bonitos para
irem fazer a alegria de outros meninos. Uma lágrima descia, marcando-lhe
um sulco na sujidade da carita. Eis que os seus olhos reparam num
menino, que de lá dentro o olhava. Desviou-se envergonhado. Não gostava
que o vissem chorar. E afastou-se devagar, pensando nos meninos que
tinham Natal, guloseimas e carros de corrida para brincar. Ele nada
tinha, além da fome e a ânsia de ser feliz e viver como os outros.
Pensou no Natal, no Menino Jesus, que diziam que era amigo das crianças
a quem dá tudo. Por que é que a ele o Jesus Pequenino do presépio nada
dava? Uma mãozinha tocou-lhe no ombro.
Voltou-se assustado. Era o menino da loja que lhe metia na mão um
embrulho bonito. À frente a mãe, carregada de embrulhos, fazia de conta
que nada via. Abriu-o e deslumbrado viu um carro de corridas, encarnado,
brilhante, como os olhos do menino que lá ao longe lhe acenava. Ficou um
momento sem saber o que fazer, mas depois largou a correr, mostrando bem
alto a sua prenda de Natal.
Parara de chover, o sol tentava romper as nuvens escuras, lançando um
raio de luz brilhante e quente sobre o Tonito, que ria feliz, numa
carita sulcada pelas lágrimas.
É Natal, é Amor, são as Crianças
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