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As lágrimas
Baseado na revista
Seleções do Rider’s Digest,
de 12/98 - Longe, na
Manjedoura
Existem
pessoas que afirmam terem uma grande dificuldade para chorar. Algumas,
com certa inveja, comentam sobre a facilidade de outras em demonstrar
sentimentos através das lágrimas.
Há quem acredite que as lágrimas são próprias da feminilidade, que
atestam fraqueza, fragilidade.
Lemos, recentemente a história de um pai que não conseguia chorar e foi
surpreendido pela pergunta de seu filho de 5 anos:
- Pai, por que nunca vi você chorar?
Que poderia ele responder? Talvez fossem seus anos de raiva, tristeza e
até alegria engolidas, que o impedissem de se expressar com lágrimas, ou
talvez porque fora educado com os conceitos de que o homem não deve
chorar.
A verdade é que aquele pai sofria de problemas de depressão, com os
quais lutava há tempos e somente respondeu:
- Filho, lágrimas fazem bem para meninos e meninas. Fico feliz que você
possa chorar sempre que está triste. Os pais, às vezes, têm dificuldade
para mostrar como sentem. Talvez eu possa melhorar algum dia.
Nos dias que se seguiram, o pai orou intensamente a Deus rogando por
alguma coisa que o fizesse sentir-se melhor.
Aproximava-se o Natal com todo seu encanto e magia. O diretor da escola
perguntou se Patrick, o garoto de 5 anos, poderia cantar uma estrofe de
uma canção Natalina, em um culto na igreja.
Naturalmente, os pais se encheram de entusiasmo. O filho tinha pendores
para a música. Estudava piano desde os 4 anos de idade. Gostava de
cantar.
À medida que os dias iam sendo marcados no calendário, dando ciência da
proximidade do evento, pais e filho começaram a ficar assustados.
O menino começou a temer não conseguir e o pai, principalmente o pai
compareceu à cerimônia religiosa na véspera de Natal, com expectativas
limitadas.
Colocou-se no lugar do filho e imaginou que jamais ele enfrentaria um
microfone e uma igreja com centenas de pessoas.
O garoto, vestido de branco, aproximou-se do microfone e começou a
entoar as notas uma a uma. Eram versos lindos que enchiam o espaço e os
corações.
O pai contemplou o menino e sentiu-se invadir por uma onda de ternura. O
que seu filho cantava tinha sabor de eternidade, uma beleza sem par.
Parecia-lhe que um anjo se corporificara ali, perante a congregação,
para brindar a todos com um presente especial de Natal. Então, grossas
lágrimas surgiram nos olhos naquele pai. A canção terminou e ele buscou
o filho, ainda nos corredores.
Ajoelhou-se, para ficar do tamanho dele e penetrou com o seu o olhar
azul do filho.
- Patrick, você se lembra de quando me perguntou por que nunca me tinha
visto chorar?
O menino afirmou com a cabeça.
- Bem, estou chorando agora. Seu canto foi tão lindo que me fez chorar.
O garoto sorriu, feliz, e atirou-se nos braços do pai, dizendo-lhe ao
ouvido enquanto o estreitava fortemente:
- Às vezes, a vida é tão bonita que a gente tem de chorar.
***
Por temperamento nos retraímos em muitas circunstâncias, quando
deveríamos exteriorizar os sentimentos que nos invadem.
Todos detemos a capacidade dos melhores sentimentos de amor.
Expressá-los, permitir que outros compartilhem das nossas emoções, das
alegrias ou das dores que nos invadam o íntimo, é também exercício de
humildade e fraternidade.
Quando nos sentirmos tocar nas fibras mais delicadas de nosso ser, pela
música, um gesto de carinho, uma conquista dos nossos pequenos,
permitamo-nos a visita das lágrimas doces, expressão do amor que
alimenta outros amores, sem vergonha, porque ninguém evolui realmente
sem o cultivo dos sentimentos mais edificantes.
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