Rainha dos congelados

Dra Lou de Olivier

 

Maria Lúcia era uma bonita mulher. Alta, olhos claros, cabelos de um ruivo escuro que contrastavam com a pele bem clara. Não tinha posses, por isso, vivia para trabalhar. Perdeu seu pai, aos 3 anos de idade. Nem o conheceu direito, só sabia que ele saiu para comprar pão e cigarros e nunca mais voltou, vítima de uma bala achada pois, se fosse perdida, ninguém a acharia... 

A mãe, com muito sacrifício, a criara trabalhando como diarista e, assim que pode entender a situação, Maria Lúcia, empenhou-se em estudar para melhorar de vida e poder cuidar de sua mãe. Lá pelos dez anos, já estava ajudando a vender lanches na cantina da escola e, com isso, podia ajudar no orçamento, já que ganhava alguns trocados pela ajuda e ainda podia levar os restos de lanches para casa.

Foi assim que aprendeu a fazer os mais variados sanduíches e era só o que sabia fazer em casa. Não tinha o mínimo jeito para faxina, não era boa para controlar o orçamento doméstico e, além dos sanduíches, não sabia sequer fritar um bife acebolado. Na adolescência decidiu-se pelo curso de secretariado. Estudava a noite, trabalhava o dia todo e, com esforço, conseguiu formar-se.

Mudou de emprego, passou a ganhar mais, podendo assim, alugar uma casa maior e mais confortável. Foi quando, finalmente, pode proporcionar descanso à sua mãe. Malu já ganhava o suficiente para sustentar as duas sem que a mãe, agora idosa e doente, precisasse se matar em faxinas. Mas, Malu queria mais, queria ser secretária executiva, dessas que parecem decidir mais do que a própria presidência das empresas. Queria comprar sua casa própria, ter uma empregada, enfim, vencer na vida. 

Recomeçou a estudar secretariado avançado e fez também um cursinho de Inglês comercial. Estava se formando e a idéia de ser uma grande secretária executiva povoava sua mente, quando leu, pasma, a carta que a diretoria havia enviado a ela. Era uma proposta de acordo com a empresa, que passava por dificuldades e, contendo verbas, estava dispensando vários funcionários, entre eles, Maria Lúcia. 

Não teve como argumentar, simplesmente aceitou o acordo, arrumou suas coisas e saiu desiludida, mas não desanimada, resolvida a encontrar logo outro emprego. O dinheiro do acordo, juntamente com benefícios a que tinha direito, daria para comprar uma casinha para a mãe, um carro e ainda sobreviver alguns meses até conseguir outra colocação, mas ela preferiu investir o dinheiro. Poderia multiplica-lo para depois decidir o que comprar. 

Enquanto procurava emprego, tentava ajudar a mãe nos afazeres domésticos, mas era uma negação. Não sabia lidar com o material de limpeza, queimava toda a comida e até os sanduíches que eram sua especialidade saíam todos sem gosto, devido a falta de treino.

Sua mãe sempre dizia que ela precisava casar ou ao menos encontrar um bom rapaz que a encantasse, só assim poderia se interessar pela casa e pela rotina caseira. Ela ria muito e dizia que ainda tinha tempo. Mas, quando se via sozinha, ela pensava que realmente precisava de alguém. O tempo havia passado, tinha agora trinta e uns anos e nada além de uma grande vontade de progredir na vida. Tinha namorado algumas vezes, mas nada sério. Como se diz por ai, tinha ficado, mas não encontrou ninguém que pudesse ficar e permanecer... 

De qualquer forma, sentia mesmo um grande vazio e esperava que, com o novo emprego, viesse também aquele famoso príncipe encantado que a maioria das mulheres espera e, quando acha que encontrou, nem cogita que o pobre, que nada mais é do que um ser humano, possa de repente transformar-se em sapo e colocar tudo a perder... Afinal era um sonho e, Malu queria sonhar direito.

Ele seria lindo, cabelos negros porque Malu tinha fixação por cabelos negros. Desde a infância, sempre chamada de bola de fogo, cabeça de beterraba, espiga de milho e vários apelidos maldosos que os colegas insensíveis lhe impingiam. Crescera sonhando em um dia ter lindos e brilhantes cabelos negros, mas desistiu da idéia na primeira tentativa de tintura, afinal com a pele muito branca e os olhos muito claros, era impossível manter os cabelos negros. Conformou-se então com seus cabelos vermelhos e passou a imaginar seu príncipe encantado com a cor dos cabelos que ela própria não podia ter. Além dos cabelos negros, o príncipe também teria olhos verdes, pele alva e um sorriso lindo revelando duas covinhas irresistíveis. Não precisava ser rico, na verdade poderia até ser bem pobre, pois Maria Lúcia seria capaz de trabalhar para sustentar este homem se um dia cruzasse seu caminho... 

No metrô super lotado, ela ria deste pensamento, enquanto todos a encaravam imaginando se seria louca ou apaixonada ou apenas mais uma estressada contando piadas para si mesma. E Malu continuava em seus devaneios sem se importar com tantos olhares curiosos.

Chegou para a entrevista de emprego e quase desmaiou quando entrou na sala e o homem, talvez futuro chefe, a cumprimentou. Era ele! Alto, cabelos negros, olhos verdes e, ao sorrir, duas covinhas que tiraram Malu do mundo real. Demorou um tempo para entender que ele lhe oferecia uma cadeira para sentar e, por sorte, ele também pareceu interessado. Daí para ser aceita no cargo foi um segundo e, também rapidamente, veio o convite para almoçar e "conhecê-la melhor". 

Malu estava encantada com Rafael, tão encantada que nem se importou quando ele disse ser casado, ter dois filhos, uma sogra caduca e dois cães fila para criar. Também não prestou muita atenção quando ele começou a ladainha dos mal casados, aquela que diz que a mulher é fria, não o entende, é burra, não acompanha sua evolução, o casamento é um tormento e ele só não se separa por causa dos filhos e também para não traumatizar os cachorrinhos de estimação tão acostumados com eles enquanto casal... 

Malu mal conseguia trabalhar a tarde toda aguardando pelo jantar a noite, quando eles sairiam para continuar se conhecendo melhor e, radiante, imaginava estar prestes a realizar seu grande sonho de amor. Após o jantar foram a um motel, desses que Malu só conhecia de anúncios em revistas. E foi uma noite maravilhosa. Fizeram amor por horas, teve até jura de amor eterno e muitos beijos incansáveis em frente sua casa já pela madrugada, quando ele a deixou. 

Teria sido a melhor noite da vida de Malu não fosse pelo fato de encontrar sua mãe passando mal. A pobre senhora já passando dos 70, tendo se sacrificado tanto pela vida, a cada dia parecia mais fragilizada e neste dia foi hospitalizada. Malu se dividia entre a apreensão pelo estado de saúde de sua mãe e a euforia do encontro amoroso. E já não sabia se estava feliz ou triste naquele conturbado dia. A mãe teve que ficar internada e Malu, sozinha em casa, pensava que passava do momento de ter um homem em sua vida. 

Neste momento decidiu investir em sua relação com Rafael. Se seu casamento estava mesmo no fim, seria o momento ideal para separar-se e ficar com ela em definitivo. Chegou a propor-lhe isto, ele sorriu mostrando as lindas covinhas, disse que era uma ótima idéia, mas nunca mais tocou no assunto. 

Malu fazia tudo para atraí-lo, trabalhava duro na empresa que crescia a cada dia, chegava em casa, cuidava da mãe e ainda encontrava tempo para se produzir para seu grande amor. Os encontros entre os dois iam se espaçando cada vez mais e Malu vivia marcando almoços e jantares em sua casa para finalmente apresentá-lo à sua mãe, mas Rafael sempre desmarcava ou às vezes nem aparecia sem sequer desmarcar. 

Malu começou a achar que era porque não sabia cozinhar bem, então resolveu investir nisso. Comprou vários livros de receitas e fazia todos os cursos de culinária que encontrava. Em pouco tempo estava cozinhando perfeitamente e sua mãe a elogiava, dizendo que finalmente estava tomando gosto pelos afazeres domésticos. 

Malu sorria, ansiando pelo momento em que poderia apresentar Rafael à sua mãe e revelar o motivo de sua transformação. Mas ele nunca vinha. A cada convite, Malu fazia um prato mais delicioso e sofisticado e aguardava até que o estômago reclamava e ela acabava comendo sozinha ou em companhia da mãe e congelando o restante para quando ele viesse. Mas, ele nunca vinha.

Quando o via, questionava porque ele tinha tempo para almoçar, jantar, sair com ela e nunca tinha tempo para ir à sua casa. Ele dizia que era a falta de tempo, que ela morava longe, que o casamento estava se desmoronando de vez, que se tivesse paciência, ia acabar casando com ela e assim passou-se quase um ano. 

A mãe tinha sido internada novamente, Malu já estava quase sem economias, pois a doença da mãe, internações, remédios e consultas a faziam gastar muito. O sonho da casa própria, do carro e de tantos outros bens que sonhara adquirir havia se desmoronado.

Era época de natal e Malu resolveu fazer um grande banquete para ela e seu amor na passagem de ano. Convidou-o com duas semanas de antecedência, antes mesmo do natal, para que não tivesse como recusar. E ele garantiu que iria, até porque sua mulher iria viajar com as crianças e a sogra e ele estaria livre para ela. 

Imediatamente iniciou a produção. Sacou o restante do dinheiro que tinha, trocou as cortinas da casa, comprou tapetes novos, encheu a casa de flores. Sua mãe gostava de flores e, certamente, se encantaria ao voltar do hospital, vendo a casa toda florida.

Dois dias antes da data marcada, Malu já começou a cozinhar os quitutes. Produziu uma salada fria, um strogonoff caprichado e uma sobremesa de dar inveja aos melhores cozinheiros. No dia foi à cabeleireira, fez um belo penteado, maquiagem, mãos, pés. Saiu do salão sentindo-se uma estrela de cinema, o coração aos pulos, contando cada minuto que faltava para as 20:00 horas...

Ligou para o hospital, a mãe continuava na mesma, ainda ficaria internada por alguns dias. Malu pensou que as flores murchariam até a volta de sua mãe... Tentou não pensar mais nisso e iniciou sua espera. 

As 19:00 horas já estava impaciente, ligou para uma amiga para conversar um pouco, se acalmou... O relógio, lentamente, acusava 20:00 horas, depois 20:30 horas; ele estava atrasado. 21:30 horas, Malu cochilou no sofá. Acordou, o relógio marcava 23:30 horas. Assustada sacudiu-o imaginando estar quebrado, confirmou o horário e começou a pensar numa tragédia qualquer. Afinal, Rafael havia prometido vir e ser pontual. Talvez tivesse sido assaltado ou sofrido um acidente, ou... 

Olhou para o telefone, nunca tinha ligado para a casa dele. Rafael pedia que não ligasse para não "piorar as coisas". Ela não ligava. Mas, este dia era especial, era comemoração de fim de ano, e ele devia estar sozinho, já que todos tinham viajado...

Insegura, trêmula e apreensiva, discou cada número e com o coração aos pulos ouviu os toques, um, dois, três... 
Uma voz de mulher atendeu: - Alô?
- A-alô... (na pequena pausa que fez pode ouvir vozes e risos) Q-quem fala?
- Aqui é Ligia. Com quem quer falar?
- Com... o Ra- Rafael...
- Um momento... Amorzinho, é para você! 
- Quem é, querida? 
- Não sei, uma mulher meio gaga...

Malu não pode ouvir mais nada, desligou enquanto as lágrimas rolavam livres pelo seu rosto. Chorou por um bom tempo, depois sentou-se à mesa, jantou sozinha. Guardou o restante no freezer e, ao examiná-lo notou a grande quantidade de congelados que havia nele. Olhou as datas, alguns congelados lá estavam há quase um ano, desde que começou a convidar Rafael e este sempre lhe dando o bolo... 

Pensativa, fechou o freezer e desandou a beber. Bebeu vodca com limão, vermute com cerejas, uísque puro e, de brinde na virada, quase uma garrafa de champanha daqueles que sobem rapidinho. Estava bem bêbada quando desandou a chorar e já nem sabia direito porque chorava, afinal estava sem suas economias, sua mãe estava à beira da morte e seu príncipe encantado nunca esteve tão bem com a mulher dele. Chorou por tudo isso e, quando foi dormir, estava desgrenhada, suja e arrasada. 

Só acordou na tarde seguinte, com uma grande dor de cabeça e uma decisão tomada. Tinha se especializado, sem querer, em congelados. Sabia os mais variados pratos, sabia as técnicas de congelamento e, com a mãe doente, precisava estar em casa para cuidar bem dela. 

Escreveu à mão mesmo uma plaquinha dizendo: "Congelados aqui". Conseguiu um arame e colocou a placa no portão. Entrou, procurou papel e caneta e iniciou sua carta de demissão. Nem bem começava a escrever, a campainha tocou. Era uma vizinha querendo saber dos congelados...

 

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