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Ao
longe cessou a voz de uma judia que recitava David.
A
ventania amenizou-se; o ambiente era, agora, de genuína e inefável
doçura.
O
próprio ar daquela noite parecia tecido de luz...
Na
quietude da campina vasta, as ovelhinhas mansas bailam suavemente.
Cedo, os cães aquietaram-se; e de há muito nenhum viajor
retardatário quebrara o grandioso silêncio dos ermos
israelenses.
De
longe em longe poder-seiam divisar, nítidos, os lírios alvos
dos campos, e as colinas, em derredor, jaspearem-se aos clarões
profusos e intermitentes, qual se formassem angelical ninho onde
todas as formosuras da Criação viessem repousar, em excepcional
homenagem à própria Vida. Por isso, talvez, o Céu se assemelhasse a rútilo diadema
Incrustado de safiras, e sons de harpas, em surdina, voassem na
carícia blandiciosa da viração noturna.
Eliezer,
atônito, a tudo assistia.
Depois...
depois se abriam os Céus profundos, alvissareiros; as estrelas;
Mas, não; não eram estrelas; eram seres à feição de anjos e
querubins que demandavam a Belém de judá.
-
Que havia de especial no vilarejo? - perguntava-se o varão
lsraelita.
O
silêncio majestoso dominava tudo.
Os fenômenos, por instante, pareceram sustar o próprio
curso.
Então,
irrompeu, das Infindas Alturas, um Sol maravilhoso, seguido de
milhões de outros sóis menores, matizados das cores mais lindas,
quais nenhum homem jamais observou.
Deus
meu - monologava Eliezer - que será?
Súbito,
despertos, cantavam os pássaros em sonorosos chilrelos.
Farfalhavam as árvores festivas.
Fremia toda a Natureza.
Cortinados e leques luminosos descerravam-se no Armamento,
em todas as direções. Era
a festa da Luz, conjugação harmoniosa de sons e cores, de doces
eflúvios e amenas irradiações.
Eliezer
divagava, agora. reparando as veredas esbranquiçadas e desertas,
naquelas altas horas da noite, quando vislumbrou um vulto algum
tanto distante.
-
Quem vem lã? - perguntou a esmo.
Firmou
bem os olhos e disse de si para si:
-
É Moad; sim, não há dúvida de que é ele mesmo.
O
vulto envelhecido e cansado contrastava com a beleza reinante.
Ladeou o sopé da colina agreste, à maneira de quem
proviesse das terras de Dã ou da tribo de Benjamin, talvez das
bandas de Emaús, e se dirigisse a Hebron, preterindo os caminhos
de jerusalém.
E
seguiu em fora, qual espectro, nada suspeitando.
Eliezer,
vidente desde menino, era pois um profeta.
E Moad? viera da Samaria.
Seria um ímpio ou um justo? um falso ou um verdadeiro
adorador de Deus?
Tais
considerações, e outras, em que tanto se comprazia, outrora, já
agora não lhe ofereciam nenhum interesse.
O samaritano não mais lhe pareceu o velho desafeto de
antanho e, sim, um irmão a mais nos caminhos da Vida.
-
Hoje começa o tempo da reconciliação - pensou intimamente o
doutor da Lei.
O
ancião já se distanciava muito, cravando seu cajado na terra
arenosa, quando Eliezer, resoluto, partiu-lhe ao encalço,
gritando:
- Moad!
Moad!
O notívago
viandante parou, estupefato.
Eliezer
corria a custo, mal sopitando a ânsia que o dominava.
O outro,
sem poder conter~se, sai-lhe, também ao encontro.
Reconhecera a voz do homem solitário; era Eliezer, seu
inimigo de pugnas religiosas, com quem sempre andava às turras.
Os dois
homens abraçaram-se, como se uma força todo-poderosa os
impelisse às alegrias da fraternidade, levando-os a esquecerem
antigas divergências curtidas a longo prazo.
Não houve
necessidade de pedirem perdão um ao outro.
Apenas disseram:
- Moad,
somos filhos de Deus...
Eliezer,
meu Irmão...
Os dois
quedaram-se em respeitosa meditação.
Percorriam com os olhos o estranho cenário da noite
iluminada, como se quisessem recolher nas próprias almas toda a
magnificência do meio ambiente.
- Que
dizes de tudo Isto, Moad? Esta
noite não te parece de Infinita grandiosidade, como se o Enviado
de Deus, que esperamos, houvesse descido à Terra, para salvar os
filhos da perdição?
- Antes,
dize-me tu, Eliezer, que és profeta, que há de especial na
antemanhã deste dia?
- Louvemos
o Deus dos nossos antepassados, Moad!
Hoje, há uma luz maior do que todo o luzeiro aceso no
Infinito e uma maravilha maior do que todas as belezas da Criação
- esta noite o Salvador virá, e o que vemos são os júbilos dos
Céus, dos santos Anjos do Senhor, pela sua Natividade.
Pouco
depois, segundo relatam os apontamentos evangélicos, aparecia o
Anjo Gabriel anunciando o advento da Boa-Nova aos pastores que
apascentavam seus rebanhos na calada da noite - Jesus, o Messias
Prometido, havia nascido em Belém de judá.
Passos Lírio
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