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Durante
quase um ano a minha casa foi na esquina da rua Paula Freitas em
Copacabana. Junto a
outros esquecidos como eu, ali esperava que um milagre
acontecesse, permitindo-me recuperar a vida que a cada momento
se perdia.
Sentada
à calçada,quantas vezes olhando aqueles que passavam felizes,
perguntava a mim mesma porque a vida me tinha sido tão
ingrata... Crescendo em meio à pobreza,mesmo em criança nunca
nenhum sonho meu fora atendido, nem um só desejo realizado.
Sentia-me
doente e só naquela tarde quase noite.
O estomago doía e eu pensava que logo a noite chegaria e
como seria difícil suportá-la, pois a fome que aumentava e o
frio que se anunciava certamente não me deixariam, mais uma
vez, dormir. Recusáva-me a usar a bebida, como outros companheiros, por
único recurso possível para alcançar o beneficio do sono. Algo dentro de mim impedia-me de buscar o esquecimento
daquela forma.
Assim,mais
uma noite chegou. Logo
o movimento da rua foi diminuindo e os amigos que comigo viviam
buscaram a marquise, aconchegando-se uns aos outros de modo a
adormecer. Quieta, tudo observava enquanto pensava: - Meu Deus Por que a
vida é assim? me ajuda,meu Deus, me ajuda! De repente, ouvi uma
voz e alguém me tocou.
Percebi
que, sem sentir,adormecera.
Amedrontada e assustada abri os olhos e fixei-os em quem
falava. Um homem jovem me oferecia um prato de comida.
Ansiosa aceitei, ao ver que os companheiros aceitavam
também.
Ainda
recordo a sensação confortadora de comer.
Há tanto tempo não comia algo assim! Tentava conter as
minhas lágrimas, disfarçando a emoção que me tomava o coração.
Deus
havia respondido a meu apelo.
E
me ensinava,naquele momento, que era necessário continuar
acreditando que, dentre aqueles que passavam apressados, alguns
observavam a pobreza esquecida e rejeitada que aí ficava, à
beira da sarjeta. Alguém
percebia que somos gente e temos fome e frio, mas temos também
sonhos e sentimentos.
Não
consegui saber o nome do moço que me estendeu a sua mão e o
seu carinho, confortando-me naquela noite de solidão.
Mas pedi a Deus que o abençoasse e a seus amigos que
naquela noite deixavam as suas casas para levar um pouco de
conforto aos miseráveis do caminho.
Após
alimentar-me adormeci, feliz, e num estranho mistério naquela
noite Deus respondeu a todas as minhas preces, pois ao final da
madrugada adormeci para acordar, mais tarde,
em um novo mundo,já
desligada de meu cansado e doente corpo de carne.
Ho!
irmãos!
Não
vos esqueçais de que nestes corpos sujos e doentes, que o vosso
instinto rejeita e o vosso coração distraído muitas vezes
repudia, existe um coração que sonha e esperar! Sonha com o dia
em que, na terra, todos possam desfrutar igualmente as bênçãos
da vida, porque o espírito da verdadeira fraternidade já tem
lugar no coração dos homens.
Lembrai-vos
de que, um dia, veio à Terra o filho unigênito de Deus e
elegeu para seus companheiros os pobres e sozinhos.
Abri
as portas de vossos lares.
Abri
as portas de vossos corações, na certeza de que, de nosso coração,
um agradecimento se eleva a Deus pelos gestos de bondade que a nós
endereçais.
Jesus
vos abençoe a todos.
Rosária
Maria da Silva (ex-mendiga)
MSG.
psicografada numa reunião mediúnica em 05/05/91,
na
Casa Espírita Eurípedes Barsamulso
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