Êta! Menino danado!

Flávio, o filho mais novo, de dez anos, era useiro e vezeiro em traquinagens que, mesmo considerando sua idade, sempre ultrapassavam os limites do tolerável, pelo menos segundo Mariano, pai do peralta.

Refletindo nos fatos, ele não compreendia por que, dos cinco filhos que tinha, somente o último a aborrecia tanto. E ficava como que cego pela raiva ao lembrar-se das queixas constantes que recebia pelo comportamento do menino, principalmente na escola, a terceira que freqüentava, desligado que fora compulsoriamente das outras, que não o puderam tolerar mais.

A última travessura que o filho aprontara fora demais para ele. O "capetinha" pulara o muro, bem alto, que separava sua casa da do vizinho, homem de mau gênio e que mantinha solto um grande cão, sempre pronto a atacar qualquer intruso.

Alertado pelos gritos do filho, surpreendido pelo animal nada amistoso, Mariano chamara pelo vizinho que, não estando em casa, naturalmente não apareceu. Diante do perigo que corria o filho, tranzido de medo, fora obrigado, por sua vez, a saltar o muro e enfrentar o cão, que recuara para o quintal diante de Mariano armado com grosso porrete.

Já em casa, Mariano não se conteve e, como sempre agia, pespegou dois sonoros bofetões no filho que tremia de medo, agora mais do pai que propriamente do animal.

Era assim na casa de Mariano, o filho aprontando das suas e o pai cometer verdadeiros desatinos, a título de corrigir a criança. Seria mesmo só para corrigir?...

-Êta! menino danado!  costumava desabafar. Com isso todos sofriam, a mãe e os irmãos de Flávio agoniados e o pai que, do fundo do coração, se repreendia pelos castigos que, implacável infligia ao caçula. Nos momentos de meditação, algo lhe dizia que o fato teria alguma explicação, que lhe escapava, porém...

Machado, outro vizinho amigo de Mariano, observava com tristeza os acontecimentos, mas temia tocar no assunto para não melindra-lo. Machado entretanto, precisava faze-lo, porque ele conhecia a explicação e o remédio para aquele mal. Então, depois da ocorrência mencionada de inicio e cujas conseqüências poderiam ter sido fatais para a criança, Machado não esperou mais. Em conversa com o amigo, disse-lhe:

- Mariano, você gostaria de ter uma explicação razoável para o comportamento do seu filho, explicação que, parece-me, irá ajudar muito a ambos?

Mariano não respondeu logo. Entretanto sabedor do comportamento correto do vizinho, homem que não tocaria em assunto tão delicado se não tivesse motivos sérios para tal, confiante e quiçá esperançoso falou:

-Sim. Não me conformo com a que me deu o psicólogo quando alegou que o comportamento de meu filho é próprio de sua idade e o meu resulta da frustração ocasionada pelo contraste entre a conduta do filho menor e a dos outros...

Dias depois, sem explicação prévia, saiam juntos a convite de Machado, que levou o amigo ao centro espírita, de que era antigo associado. Mariano, a entrada, mostrou-se surpreso, acalmando-se, porém ao ouvir do amigo:

- peço-lhe que confie em mim. Entretanto, poderá retirar-se no momento que quiser.

Poucos depois estavam sentados, observando Mariano, bem impressionado, o recolhimento de todos que aguardavam o início da reunião. Ele mesmo se sentia calmo, embora intrigado diante do que ocorria, sem atinar para que fora trazido ali por Machado. Ia pedir-lhe esclarecimento a respeito, quando o presidente da casa abriu a sessão, explicando aos presentes que iriam ouvir uma palestra que versaria sobre a reencarnação, um dos princípios básicos da doutrina espírita.

Mariano lembrou-se então que já ouvirá falar do assunto ou lera  algo a respeito.

O expositor, em linguagem sintética e claríssima, começou, então, a transmitir os conhecimentos atuais relativos à reencarnação, sempre atento também, ao que ensina o espiritismo. Disse que o homem, constituído de espírito eterno e corpo carnal perecível, deve progredir sem cessar, intelectual e moralmente, mas não o pode fazer em uma vida só, motivo por que morre (desencarna) e depois renasce,  ou seja, reencarna em novos corpos físicos, muitas e muitas vezes, numa seqüência de vidas sucessivas na terra.

Mariano ouvia atento, enquanto o expositor continuava: "No espaço, desencarnados, e na terra, encarnados, os espíritos convivem uns com os outros, originando-se situações de fato marcadas pelo bem ou pelo mal, por este em muito maior proporção, quando há transgressão ao mandamento de Jesus, o amai-vos uns aos outros."

Em seguida citou estas passagens de Allan Kardec, que sintetizam admiravelmente o objeto e o processo de encarnação:

"Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se não for em uma existência, selo-a  na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si... o homem, pela ação de rigorosa justiça

distributiva, sofre o que fez sofrer aos outros."

Prosseguindo, afirmou: Aí está por que no mundo há ricos e pobres, humildes e poderosos, sãos e doentes, ignorantes e inteligentes, virtuosos e devassos, atritos e desavenças entre familiares, provas individuais e coletivas, poucos felizes e muitos desgraçados."

O conferencista (que atendia a uma sugestão de Machado) anunciou, então:

"Daremos um exemplo prático para mostrar o que ocorre no caso de inexplicadas desavenças entre familiares. (isso é comigo pensou Mariano.) A e B são esposos, com filhos crescidos. O nascimento do caçula, temporão, não é do agrado do pai, que o recebe com vibrações muito negativas. Com o crescimento o menino se torna indócil, muito arteiro, agressivo, principalmente com o pai que, desesperado o considerava culpado pelo verdadeiro "inferno" em que se havia transformado seu lar, è que a reencarnação reunirá sob o mesmo teto, para o necessário ajuste, dois espíritos antipáticos, pai e filho com dívidas recíprocas, de vidas passadas, inimigos talvez.

mas, não haverá remédio para este mal?, pergunta-se. Haverá sim, pois conhecidas as suas causas  bastará elimina-las com a mudança de atitude do pai, que deverá ser, agora de muita paciência, de cuidados, de demonstração de carinho e renuncia em benefício do jovem, o que o levará com o tempo a modificar-se, integrando-se plenamente no lar, pela educação espírita, à base do perdão e amor."

Foi então que Mariano perplexo mais convencido da veracidade da reencarnação, entendeu porque Machado o trouxera ao centro espírita.

Ele agora encontrava explicação para o que acontecia em seu lar, principalmente com ele e o filho caçula. Já podia agir, em conseqüência. O aparentemente absurdo tornava-se lógico e tudo se explicava, sem dúvidas.

O tempo fez o resto: Estudando e conhecendo o espiritismo, Mariano passou a agir de forma totalmente diferente com o filho, de quem conquistou a confiança e a amizade. Daí para amor foi um passo.

Flávio notará espantado a mudança de tratamento que lhe dispensava o pai, até que soube que ele assim procedia em função dos ensinos da Doutrina Espírita, de que se tornara adepto. Agora em vez dos tapas freqüentes recebia do pai conselhos e pedidos amigáveis para que se reformasse, agindo como os demais irmãos que só alegria davam aos pais.

Um dia, na sala, a família reunida ouvia mais uma vez Mariano contar como o Espiritismo o havia transformado num homem novo pelo pensamento e pelas ações, a partir do momento em que lhe desvendara os motivos de sua atitude errada de antagonismo para com o próprio filho. Foi quando Flávio , renovando a alegria de todos, a satisfação estampada no rosto bem formado, já sem equimoses, externou, quase gritando, seu original agradecimento pela modificação benéfica do comportamento dele e do pai, ambos agora muito amigos:

-ÊTA !!! ESPIRITISMO BOM!!!!

Pedro Franco Barbosa

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